Quatro pés em um pé de qualquer coisa

30 11 2009

Alguns dias atrás, subi em uma árvore junto com meu filho de 3 anos. Lá em cima me lembrei de uma frase que li há algum tempo, era algo como: “compartilhar uma música é uma forma de dividir um sentimento”.

– Quer aprender uma música?

-Quero.

Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava o rock para as matinês

Ensaiamos  algumas vezes, e o pequeno já estava completando o final de cada verso, ligo para minha avó, que me cantava esta música quando eu era pequeno. E foi também quem me ensinou a subir em árvores.

Depois de conversar um pouco com ela, digo que tenho algo pra mostrar. Puxo um pedaço da canção e o pequeno completa, assim vamos pelos versos. Quando terminamos tenho lágrimas nos olhos. Estou feliz, canto pra uma pessoa que amo, com o acompanhamento de meu filho, em cima de uma árvore, uma bela vista da cidade, a vida pela frente.

Disfarço a voz para não mostrar a voz de choro. Me despeço e desligo o telefone. Na minha cabeça lembranças de uma infância, em meus braços uma criança.

Penso sobre a letra:
Pra lá deste quintal
É uma noite que não tem mais fim

Quando aprendi esta música, atrás dos muros do meu reino, corria o ano de 1987, ainda vivíamos todos sobre a sombra da Ditadura Militar, havia esperanças na vida de muitas pessoas. Na minha família muitos sonhavam com um mundo mais justo. Alguns saiam às ruas  para defender seus sonhos.

Hoje, vinte e dois anos depois, persistem as sombras. Tristemente grande parte das pessoas deixaram de sonhar com algo mais que um bom emprego. O individualismo é o pai-nosso pregado pelos livros de auto-ajuda, pelas palestras motivacionais, pela tela da TV, pelas páginas de jornais.

Mas não creio que seja uma noite que não tem mais fim. Comigo, alheio aos meus pensamentos, escalando galhos um pouco mais altos, um curumim de olhos e cabelos negros sorri. Os sonhos ainda existem.

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Amor em tempos de telenovela

25 11 2009

Antes de mais nada, deixo claro que vejo nas novelas uma grande perda de tempo, uma forma de brutalização de pessoas e criação de um mercado massificado. Mas alguns aspectos são por demais cruéis.

Faz parte do enredo batido que se repete sete vezes por semana, em cinco horários diferentes por quatro canais abertos: um casal apaixonado – os mocinhos; de fora, fazendo o possível para atrapalhar, um par de vilões, desprezados e vingativos, desejando ter de volta o amor de um dos que fazem o papel principal da trama.

Logo, o amor é o sentimento que conduz os personagens. O amor dos “bandidos” é sempre doentio, resiste a tudo, todas as interpéries, e segue firme, até que a morte no último capitulo os separe, para felicidade geral da nação. Fica a lamentavél ideia de que a morte é a única possibilidade de escapar de um amor indesejado.

Mas o quadro se torna ainda pior quando observamos o amor dos mocinhos. Um não nutre a menor confiança no outro, os dois são incapazes de conversar sobre seus problemas, a saída para todos os problemas são rompimentos, um termino que dura até a semana final do folhetim, quando se casam, pouco antes de um vilão cair com o carro em um despenhadeiro.

Imagine como serão os amores daqueles que são criados ou vivem rodeados por estes exemplos?

Deixo uma dica com um caso que aconteceu comigo.

Estava em um táxi coletivo quando uma música começou a tocar no rádio. Ao ver uma passageira fechar os olhos emocionada para acompanhar a letra, resolvi prestar atenção. Segue um trecho:

Não ligue se eu lhe perguntar
Nem vá se estressar se eu quiser saber
Com quem e aonde você tá
Que hora vai voltar, e o que vai fazer…
Não tô pegando no seu pé
É que quando a gente quer a gente vai à luta
Mas não desligue o celular, eu vou te rastrear
Porque quem ama cuida…


Até ai eu já estava bastante assustado. “Não desligue o celular eu vou te rastrear”, se não beira a psicopatia, já pulou pro lado de lá. E a minha companheira involuntária continuava de olhos fechados, parecia imaginar seu grande amor cantando para ela. Então veio a continuação:


Ei, não é ciúme, eu confio em você…

Daí em diante fiquei realmente preocupado, não consegui mais prestar atenção na letra, pensei na minha vida, pensei em meu filho e meus amigos.

Quando desci do táxi, esperei que ele me perdesse de vista. Me abaixei e pus o ouvido no chão, ouvi o barulho de cascos, era a barbárie se aproximando. Ela estava a galope.





Lendo asas

20 11 2009

…eu leio suas asas…
como quem lê a palma de uma mão
estranhas linhas que só dizem liberdade
e se cruzam em sonhos

Leio suas cartas como quem pode voar
E sinto no rosto o vento de um horizonte sem fim





A crise econômica e o crack no Brasil

17 11 2009

Recentemente, jornais de todo o Brasil vem noticiando o crescimento do consumo de crack pela classe média. Curiosamente este crescimento se deu principalmente a partir de 2008, mas essa informação é apenas colocada, nunca analisada. O fato deste crescimento ocorrer justamente durante a crise econômica, por algum motivo, não despertou nenhuma curiosidade ou reflexão por parte dos meios de comunicação.

O tráfico de drogas é apenas mais um mercado, está portanto sujeito às mesmas crises da economia capitalista. Um negócio altamente lucrativo. Atualmente é o segundo maior mercado do mundo ficando atrás apenas da venda de armas. Como se vê, a possibilidade de morte não é um problema para o mercado. O importante é o lucro.

E porque uma droga que já existe há muitos anos se torna, justamente durante uma crise econômica, um mercado em expansão? Inicialmente podemos considerar a necessidade de reproduzir as antigas taxas de lucro, já então  impossibilitadas de serem atingidas devido à crise.

O crack é uma droga barata e com alto poder de destruição. Isso certamente fazia com que os traficantes,  visando à manutenção de seu mercado, evitassem a venda  deste subproduto.  Tratava-se até pouco tempo atrás,  de uma droga para “pobres”: a classe média era preservada, uma vez que podia consumir produtos mais caros e provavelmente mais lucrativos.

Mas, uma vez que o mercado se restringe,  é hora de buscar o lucro imediato. Se o preço é a morte do consumidor, não importa, desde que se pague o preço justo. A lei da oferta e da procura corrige o seu baixo valor de mercado. A capacidade viciante do crack e seu curto efeito no organismo são perfeitas para as atuais necessidades do mercado. Um viciado em crack tem maior possibilidade de se desmonetarizar para comprar a droga – e com maior frequência – do que aqueles que são viciados em outras drogas.

A ideia de que a crise é apenas uma marolinha é falsa. Seus reflexos continuam silenciosamente sentidos, são carregados pelo vento e chegam às casas de todo o Brasil na fumaça de um cachimbo de crack.

LINKS sobre o assunto:

http://www.adusp.org.br/revista/07/r07a07.pdf

http://www.youtube.com/watch?v=z7tu5BYs700&feature=related

http://www.unodc.org/unodc/en/data-and-analysis/WDR-2009.html

http://stopthedrugwar.org/pt/cronica/570/UNODC_costa_bancos_narcotrafico